― Me veja outra cerveja ― Disse María com sua voz musselinosa.
É claro que eu estava amarga.
Era um pouco mais que duas da manhã, quando María resolveu acender o décimo quinto cigarro, o que a fez sentir-se ligeiramente bem.
O balcão era imenso, cabiam milhares de histórias. Havia duas atendentes, a segunda desabotoou três botões da camisa pólo branca, eu observei por um longo tempo seus movimentos, o decote sorrio. A mulher mais velha repreendeu a moça e a María, era proibido fumar ali.
Nunca soube ao certo se a moça do decote havia obedecido, e abotoado tudo de novo.
María puxou-me pelo antebraço.
Deixe-me mostrar uma coisa:
Digamos que o reinado de María começou as duas e pouca da madrugada, quando atravessou irritada pela porta da boate em um feriado nacional.
― Concluí que já não posso amar-te, e isso me deixa tresloucada.
― De onde tirou essa expressão?
― De seus poemas. Veja, tres-lou-ca-da. Soa bem.
― E tem uma rima ótima.
― Não mude de assunto.
Eu estava disposta a perambular pela casa, incapaz de conciliar o sono. O céu já despontava um amanhecer corado por luzes vermelhas, e por mais inconspícuo que fosse aquela manhã, e certamente não havia nada de imperceptível nela, era um plano de imensuráveis riscos descreve-la. O mês de abril é o mais agradável de todos, quando o outono está começando, e o calor já não é tão forte, a luz privilegiada do sol ainda morno acomodava-se por toda sala, quando comecei a escrever.
María, sua idiota.
Coloquei tuas coisas fora. Sim, María, tuas fotos, teus presentes, o livro do teu amado Paulo Coelho ( Que eu odeio ), teus discos de Caetano, teus bilhetes. Está tudo no lixo, quiçá já no caminhão.
Ela riu entre o beijo e eu aproximei mais meu corpo do dela. Ela colocou uma de suas pernas entre as minhas e encaixou nossos corpos enquanto deslizava a mão pela lateral do meu corpo. Eu segurei-a pela cintura e a apertei contra a penteadeira; e, sem desgrudar nossos lábios, ela empurrou seus perfumes para o lado e se sentou ali em cima. Desviei os beijos para o seu pescoço e mordi de leve a curvatura dele fazendo-a soltar um gemido baixo. Senti suas mãos deslizando pelo meu corpo até a minha bunda, apertando-a e me empurrando contra ela. Voltei a traçar um caminho de leves mordidas do seu pescoço até sua boca quando ouvi passos vindos do corredor. Eu travei com a minha boca na sua antes de recuar o rosto para olhá-la. Nós duas nos encaramos atônitas e ela desceu da penteadeira tentando ajeitar sua roupa. Eu me joguei na cama de qualquer maneira e nós duas nos olhamos apavoradas antes de começar a rir escandalosamente.
― Odeio toda essa gente da sua família, María.
― Então me leve embora.
― Para minha casa?
― Para o seu mundo.
Mesmo que jamais fosse retroceder
Ao apelo do que houvera de ter sido um dia.
Cá dentro pediria por manhãs ensolaradas,
Noites solitárias e tardes sorrateiras.
Talhado para além das vastas secas,
Esse menino moço de pés descalços.
Servo do rei no reino daqueles versos,
De todo meu esquio aos males de alabastro.
A imagem penitente na tortura das pedras de rosário.
Diz-me: Se não tem comida, não tem sorte.
Interminável como o sertão de açucenas.
Emoldurada no uníssono das agonias.
Pobres sentidos que vezes enganam.
E meus apegos? Estes partiram nem eu sei quando.

