Gosto de conversas longas, de amores possíveis, de pessoas fáceis de lidar, de bons livros, de momentos calmos, de noites agitadas, de manhãs quentes e de domingos bem aproveitados, de comida salgada, de fatos, incenso, chá doce, de música que cante por mim, de cafeina, de milagres terrenos e de grandes sonhos, de trabalhos bem feitos e de amigos verdadeiros, de bebida forte, de partidas de xadrez e sinuca, de corujas e gatos, de magia e dos Sabbats, do ar e eternamente da lua. Eu, Ani Veloso.

Me veja outra cerveja ― Disse María com sua voz musselinosa.

É claro que eu estava amarga.

Era um pouco mais que duas da manhã, quando María resolveu acender o décimo quinto cigarro, o que a fez sentir-se ligeiramente bem.

O balcão era imenso, cabiam milhares de histórias. Havia duas atendentes, a segunda desabotoou três botões da camisa pólo branca, eu observei por um longo tempo seus movimentos, o decote sorrio. A mulher mais velha repreendeu a moça e a María, era proibido fumar ali.

Nunca soube ao certo se a moça do decote havia obedecido, e abotoado tudo de novo.

María puxou-me pelo antebraço.

Deixe-me mostrar uma coisa:

Digamos que o reinado de María começou as duas e pouca da madrugada, quando atravessou irritada pela porta da boate em um feriado nacional.

Concluí que já não posso amar-te, e isso me deixa tresloucada.

― De onde tirou essa expressão?

― De seus poemas. Veja, tres-lou-ca-da. Soa bem.

― E tem uma rima ótima.

― Não mude de assunto.

 

 

Eu estava disposta a perambular pela casa, incapaz de conciliar o sono. O céu já despontava um amanhecer corado por luzes vermelhas, e por mais inconspícuo que fosse aquela manhã, e certamente não havia nada de imperceptível nela, era um plano de imensuráveis riscos descreve-la. O mês de abril é o mais agradável de todos, quando o outono está começando, e o calor já não é tão forte, a luz privilegiada do sol ainda morno acomodava-se por toda sala, quando comecei a escrever.

María, sua idiota. 

Coloquei tuas coisas fora. Sim, María, tuas fotos, teus presentes, o livro do teu amado Paulo Coelho ( Que eu odeio ), teus discos de Caetano, teus bilhetes. Está tudo no lixo, quiçá já no caminhão. 

Ela riu entre o beijo e eu aproximei mais meu corpo do dela. Ela colocou uma de suas pernas entre as minhas e encaixou nossos corpos enquanto deslizava a mão pela lateral do meu corpo. Eu segurei-a pela cintura e a apertei contra a penteadeira; e, sem desgrudar nossos lábios, ela empurrou seus perfumes para o lado e se sentou ali em cima. Desviei os beijos para o seu pescoço e mordi de leve a curvatura dele fazendo-a soltar um gemido baixo. Senti suas mãos deslizando pelo meu corpo até a minha bunda, apertando-a e me empurrando contra ela. Voltei a traçar um caminho de leves mordidas do seu pescoço até sua boca quando ouvi passos vindos do corredor. Eu travei com a minha boca na sua antes de recuar o rosto para olhá-la. Nós duas nos encaramos atônitas e ela desceu da penteadeira tentando ajeitar sua roupa. Eu me joguei na cama de qualquer maneira e nós duas nos olhamos apavoradas antes de começar a rir escandalosamente.

― Odeio toda essa gente da sua família, María.

― Então me leve embora.

― Para minha casa?

― Para o seu mundo.

 

Mesmo que jamais fosse retroceder                                            
Ao apelo do que houvera de ter sido um dia. 
Cá dentro pediria por manhãs ensolaradas, 
Noites solitárias e tardes sorrateiras.


Talhado para além das vastas secas, 
Esse menino moço de pés descalços. 
Servo do rei no reino daqueles versos, 
De todo meu esquio aos males de alabastro.


A imagem penitente na tortura das pedras de rosário.  

Diz-me: Se não tem comida, não tem sorte. 
Interminável como o sertão de açucenas. 


Emoldurada no uníssono das agonias. 
Pobres sentidos que vezes enganam. 
E meus apegos? Estes partiram nem eu sei quando.